o tempo é a noiva
Esse texto foi escrito, a pedido, para ilustrar alguns dos trabalhos da nova exposição do artista plástico Jorge Pedro. Jorge é meu amigo é sou fã incondicional de seus trabalhos. O texto tem vida independente por isso resolvi postá-lo aqui também.
uma construção desnecessária, em pílulas, para a discussão da filosofia de vida que o tempo não tem. o tempo é a maior de todas as barbaridades. o tempo é sublime. o tempo é um cavaleiro de armas escuras em plena claridade da manhã no início inicial dos tempos.
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hoje eu vi uma noiva em plena avenida paulista passeando de bicicleta com amigas e cestas de flores, ela gritava que estava feliz e iria ser feliz para sempre. o sempre é o pai do tempo, pensei. devemos chamá-lo então de sr. sempre? o tempo seria essa noiva dizendo aos quatro ventos que era filha do sempre? quanto tempo dura o sempre?
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jorge pedro não é apenas jorge, mas pedro também. um nome é pouco para a fome de tempo que o artista tem. jorge com pedro construiu com as suas obras uma máquina do tempo e seu mudou pra lá. jorge pedro agora é o dono do tempo e, talvez, esteja pedindo em silêncio, um resgate para o sr. sempre, que o pai do tempo.
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aprendi nos livros de artes com os doutores em doutoramentos doutorais que a boa arte não envelhece nunca. jorge pedro faz boa arte. minha avó me dizia que tinha ficado sábia porque envelhecera. a boa arte de jorge pedro não envelhecerá nunca, então jamais ficará sábia? Essa será a maldição de ser boa?
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os livros dos doutores falam de boa arte. existe má arte? o que não é bom seria arte também? perguntam meus intestinos.
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tempo, tempo, tempo, tempo, vou lhe fazer um pedido, diria o poeta.
eu não peço nada, já te matei tantas vezes e você não morreu.
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os relógios servem para medir o tempo. quando olhamos para eles sabemos quanto tempo não temos mais. quando olhamos para eles sabemos que é hora de almoçar, de dormir, de beber, de sair para o trabalho. o relógio aprisionou o tempo e o tempo nos fez prisioneiros, logo o mundo deve ser uma grande ampulheta. quando será o dia em que seremos virados para baixo para começar tudo outra vez?
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a primeira vez que fui a um psiquiatra para checar o nível de minha loucura, ele me disse fique tranquilo você tem todo o tempo do mundo para se abrir comigo. hoje sei que quem tem todo o tempo do mundo é o sempre, que está preso na máquina do tempo de jorge pedro. será que eu sou jorge pedro e não sei? todo mundo quer ser jorge pedro e john malcovich também.
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a infância tem o dom de não envelhecer, para as crianças o tempo não passa, flui. para um bem-te-vi o tempo dura as três sílabas de seu canto. para uma mosca adulta vinteequatrohoras, uma eternidade no mundo minúsculo das moscas. para a menina que não ganhou a boneca no natal, o tempo dura uma lágrima. para noiva deixada no altar o tempo dura o olhar de seus convidados. para o velho sentado sozinho no banco da praça o tempo dura a passagem da família a caminho da missa. para um coração quebrado o tempo dura até o jorrar de todo o seu sangue. para um sonhador o tempo dura até que a última luz se apague no horizonte sem fim.
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atemporalidade é tudo que vive fora do tempo. o que vive fora do tempo não pode ser encontrado pela máquina do tempo. a arte é atemporal. existirá uma máquina da atemporalidade?
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muitas pessoas dizem que gostariam de ter vivido em outro tempo, um tempo onde o tempo não passasse tão rápido. se elas vivessem lá talvez nunca soubessem que tempo então passava devagar. as pessoas sempre sabem o que é o tempo, desde que não pensem sobre ele. o tempo é justo a ignorância que temos dele.
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o tempo é
e basta.
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cada fração de tempo é o pedaço de um quebra-cabeça. quando somamos todos os pedaços devemos encontrar o todo. se a soma das partes faz o todo e o todo é o fim do caminho das partes, o tempo terá fim?
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estarão os quatro cavaleiros do apocalipse sem os seus cavalos, por isso o fim dos tempos demora tanto a chegar?
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o tempo que é aquela noiva de bicicleta por onde andará agora? a arte moraria no vão da ampulheta, por isso não poderia morrer? terei eu morrido um pouco mais enquanto escrevia esse texto?
nailor marques júnior
de tempos em tempos
Dizem que o tempo é a gente que faz…Eu digo, agora, que o tempo é que faz a gente. Domina os dias, as horas, os minutos. O tempo quer ser o senhor da vida.. e a brevidade da vida nos faz desejar que o tempo pare. Grito: pare agora! mas não há resposta… só os sinais, do tempo. Imploro: demore um pouco mais comigo, tempo! Mas… nada! Como ele é cruel e insensível aos meus sentimentos. Ele passa diante de mim, o tempo. O meu tempo é só agora. E o agora me diz que nada tenho e que sou o pó. O tempo e o pó. Nada me pertence.
Comentário por Regina Peron — novembro 13, 2009 @ 6:41 pm