Prof. Nailor Marques Jr.

fevereiro 25, 2010

Branca de Neve, a rainha burra, o espelho ingênuo, os anões gays e o príncipe necrófilo

Arquivado em: Publicações — Prof. Nailor Marques Jr. @ 2:19 pm

Num reino muito distante (isso é básico), num período de “era uma vez” vivia uma rainha linda e má (tipo vilã da novela das oito da Globo, que sempre começa às nove e meia), ela era viúva de um rei que já tinha uma filha chamada Branca de Neve (isso é nome de gente?). A menina tinha a pele branca (se fosse hoje, ela não seria mais assim, porque todas querem um bronzeamento, nem que seja artificial) e as faces rosadas, era muito boazinha, apesar de ser muito mal tratada pela madrasta.

Sua madrasta má tinha a certeza de que era a mulher mais bonita do seu reino e, para ter certeza disso, sempre consultava seu espelho mágico (todas as mulheres deveriam ter um para parar de perguntar aos homens se elas estão bonitas, sem permitir nunca que eles digam a verdade). O espelho (notem que é do sexo masculino) sempre dizia que ela era a mais bela de todas, até o dia em que Branca de Neve completou 15 anos, então espelhou, absolutamente ingênuo, resolveu ser sincero (isso é inimaginável igual político sincero: se um político disser que vai “trabalhar” apenas terça de a quinta e roubar só o normal, nunca vai se eleger), mas o espelho num arroubo de sinceridade, disse:  

- Não, agora não, majestade, Branca de Neve é a mais linda de todas, a mais bonita do reino.

A rainha atirou o espelho ao chão, ele deu uma trincadinha, mas calou a boca na hora (é o melhor que os homens podem fazer num momento desses). Mandou chamar um caçador e pediu que ele levasse Branca de Neve para a floresta (hoje diríamos mato, mas é um pouco agressivo sexualmente falando), que a matasse e trouxesse o seu coração de presente (e o povo reclama do Maníaco do parque!).

O pobre rapaz não teve coragem, deixou a jovem fugir, matou um cordeiro e deu de presente à rainha (claro, num tempo em que não havia Greenpeace). Tudo parecia estar bem, até ela perguntar de novo ao seu espelho mágico (e burramente honesto) quem era a mais bela. E, de novo, pasmem, ele disse a verdade mesmo conhecendo a sua patroa. Ele lhe disse que ela morava na floresta com 7 anões (qual é a chance de nós encontrarmos dois anões juntos? Agora imaginem sete? Moram juntos, não têm mulher, nunca tiveram e ainda são felizes? Encontram uma menina de 15 anos, linda, virgem, que quer morar com eles e eles a adotam? Moral da história: são gays ou assexuados, claro).

A rainha jogou o espelho ao chão de novo e começou a organizar um plano para tentar matar a menina outra vez. Enfeitiçou uma maçã e tentou convencer a jovem a comê-la. Se a bruxa encontrou Branca de Neve sozinha, no meio da floresta, para quê usou o truque da maçã? Por que não deu logo um tiro na menina? Eis o mistério da fé! A menina (nem tão menina assim) comeu a maçã e teve um desmaio profundo (e fico me perguntando, não era veneno?).

Quando os assexuados chegaram viram a menina desmaiada e pensaram que estava morta. Com pena de enterrarem aquela belez colocaram-na num caixão de vidro perto da casa deles (Será que eles pensaram que ela ficaria intacta? Eram anões e burros, porque não imaginaram que ela putrefaria?). Mesmo assim fizeram isso, até que um lindo príncipe, daqueles da Cinderela (história 1), chegou, abriu o caixão e beijou a moça (hoje diríamos que era um dark, um gótico ou um necrófilo). Quem em sã consciência abriria um caixão de uma desconhecida e a beijaria na boca, sem ser um doente mental? A moça cuspiu o pedaço da maçã que estava em sua garganta e voltou à vida, saiu de sua catalepsia, o príncipe, então, se casou com ela (hoje as mulheres estão tendo dificuldades de encontrar um homem para casamento estando vivas, imaginem mortas), os anões deram uma festa e todos viveram felizes. A rainha má presume-se que tenha voltado ao palácio e dado uma surra boa no Espelho mágico para se acalmar, tomou duas cápsulas de fluxetina e seguiu a vida, rainhamente.

fevereiro 11, 2010

Os três porquinhos e o lobo estúpido

Arquivado em: Publicações — Prof. Nailor Marques Jr. @ 2:53 pm

Esta é a estória mais improvável das estórias infantis. Era uma vez (ninguém nunca sabe quando), numa floresta encantada muito distante (ninguém nunca sabe onde, na Europa desde o século XII é difícil encontrar uma floresta, imaginem só uma encantada) três irmãos porquinhos que viviam de brincar e correr com os outros animais da floresta, mas temiam muito a chegada de um lobo mau.

 Nunca entendi direito o que quer dizer “uma floresta encantada”, muito menos por que, numa cadeia alimentar enorme, apenas um lobo quereria comer os porcos? Onde estavam os leões, o leopardos ou os tigres? E também levanto duas questões filosóficas: existem lobos bons? Os porquinhos temiam apenas o lobo, porque nunca entenderam como os ciclos da vida funcionam?

Com medo do aparecimento do tal lobo (que eles sabiam que apareceria, talvez por intuição suína), os porquinhos resolveram construir três casas para se abrigarem em caso de perigo. Antes eles moravam onde? Eles não tinham pais que pudessem cuidar deles ou seus pais já haviam sido mortos antes? Se eram três irmãos, por que construíram três casas e não apenas uma para morarem juntos, já que ainda eram porquinhos?

 O mais preguiçoso construiu uma casinha de palha; o porco ligeiramente mais empenhado construi uma casa de taipa e o mais zeloso e trabalhador de todos, construiu uma casa de tijolos e cada um se abrigou na casa em que construiu. Só depois que as três casas estavam prontas foi que o lobo apareceu. Isso não parece bastante estranho? O lobo só se interessou por carne suína, depois que os porquinhos já estavam abrigados? Onde ele esteve esse tempo todo?

Quando os porcos notaram a presença do animal feroz gritaram e correram cada um para a sua casa. Estranho que todos não tenham corrido para a mesma casa, o que seria muito mais lógico. O lobo, que agora estava faminto e queria variar o seu cardápio, correu atrás dos animaizinhos, mas não os pegou. Porcos correm mais do que lobos?

Ao chegar a casinha de palha, o lobo gritou:

- Abre essa porta senão eu assopro!

E o primeiro porquinho obviamente respondeu:

- Não abro!

Claro, isso é mais do que lógico, se os porcos não tivessem medo do lobo ou desejassem ser devorados por ele, por que teriam construído as casas e se refugiado nelas? Se o lobo viu que os porquinhos fugiram assustados, o que o fez pensar que, sendo gentil e pedindo, algum dos porquinhos abriria a sua porta e o convidaria para um café? Como o primeiro porquinho não abriu, o lobo assoprou forte e a casinha caiu. O anilmalzinho saiu correndo e gritando e se escondeu na casa de taipa. Já que era para se proteger do lobo, por que ele já não correu para a casa mais segura?

O lobo, vendo frustrado seu almoço, correu para a segunda casa e gritou estupidamente a mesma coisa:

- Abre essa porta senão eu assopro!

E como era de se prever, os porquinhos não abriram. O lobo assoprou e casinha veio ao chão. O suininhos correram, o lobo não os pegou de novo, e eles se esconderam na casa de tijolos, a mais segura de todas, e já estava na hora. O lobo, mais idiota do que nunca, repitiu o mesmo gestual. Se os poruinhos não abriram antes e correram assustados, o que fez com o lobo pudesse pensar que eles mudariam de plano? Esse lobo é um assinte de burrice à sua espécie.

Gritou, assoprou e casa não caiu. Repetiu o gesto três vezes e nada aconteceu (é bom lembrar que a única diferença entre a inteligência e a burrice é que a inteligência tem limite). Quando ele viu que a casa tinha chaminé e que dela saía fumaça, pensou que poderia entrar por lá. Esse lobo é de uma estupidez assustadora: se saía fumaça da chaminé é porque havia fogo lá embaixo e se havia fogo, como esse animal idiota poderia entrar por lá? Mesmo assim tentou. Os porquinhos perceberam, abriram a panela de água que fervia, o lobo caiu dentro e morreu. Havemos de convir que, para um aninal tão imbecil assim, esse era o único destino possível. Se bem que entre os humanos pessoas assim podem virar deputados, senadores e, quem sabe até, presidentes.

Os porquinhos saíram de suas casas e cantaram uma canção muito suspeita, fazendo festa com os outros animais. A grande pergunta é: se havia outros animais e o lobo não conseguiu pegar os primeiros porcos, por que não mudou de planos e comeu outro animal qualquer?

fevereiro 8, 2010

Cinderela e a terapia

Arquivado em: Publicações — Prof. Nailor Marques Jr. @ 3:45 pm

Cinderela era só uma mulher comum, bonita, sexualmente atraente, porém comum (como são todas as pessoas). O problema é que Cinderela, porque nunca frequentou um analista, não sabia que sofria de sua própria síndrome (que é a de passar a vida toda esperando a chegada de um príncipe lindo, alto, forte, loiro, cabelo cortado à Channel, calça apertada, camisa bufante e montado num cavalo branco, com quem pudesse  se casar e passar com ele todas as noites de luar fazendo amor). Queria pouca coisa a aspirante a princesa.

O que Cinderela não sabia também é que um homem lindo, alto, louro, cabelo cortado à Channel, calça apertada, camisa bufante e montado num cavalo branco, se existir, com toda certeza será gay. Cinderela nunca entendeu tampouco que  homens gostam de sexo e que para eles fazer amor é uma forma eufemista de fazer sexo (tanto que nenhum homem diria numa roda de homens que fez amor com uma mulher, sob pena, no mínimo, de um sorriso desconfiado da audiência).

Como Cinderela passou a vida desdenhando dos homens brutos que se acercaram dela (para ela, todos os homens que não correspondiam aos seus sonhos, homens reais, portanto, eram brutos, isso é parte da síndrome), terminou a sua história só. Cinderela passou a vida procurando bichos nas nuvens e costurando um enxoval fantasma e assim viveu infeliz para todo o sempre.

Em tempo: o príncipe apareceu, mas não a encontrou. Sabe-se que encontrou seu grande amor num baile do Gala Gay e hoje é um modelo famoso nas páginas do GMagazine.

 

Desestórias

Arquivado em: Publicações — Prof. Nailor Marques Jr. @ 3:43 pm

Sempre amei Guimarães Rosa por sua capacidade de desenredar as estórias mais enredadas, sempre achei que mais difícil do que contar uma estória seria descontá-la. Fico bestamente, às vezes, pensando no que as estórias não seriam, se não fossem assim como são. Por isso quero satreana e inutilmente pensar um pouco no detrás de algumas delas, no nãoconto, no nãodizer das coisas. Assim como se uma borboleta virasse lagarta e a lagarta pudesse voar na solidão de sua lagartez. As desestórias que se seguem são assim: lagartas que voam, são bichos de pé, sem pé nem cabeça, são desinvenções pra fazer o tempo parado passar.