Para mim foi uma grata satisfação ter realizada a palestra de abertura do ano letivo para todos os professores da UNOESTE, em Pres. Prudente-SP, por várias razões, mas cito três:
1) Eu nasci em Prudente e precisei falar mais de 1000 vezes em todos o Brasil e no exterior para receber um convite para a cidade que desse certo;
2) Foi o primeiro encontro do gênero em 37 anos de instituição, um encontro que reuniu todos os professores ao mesmo tempo, das mais variadas áreas e eles estavam felizes;
3) O auditório estava lotado, com mais de 550 professores e em mais de 2h e 30 de palestra, ninguém se levantou para nada. Com a qualidade intelectual e profissional do público presente, considerei um feito extraordinário.
Apresento aqui algumas fotos e reproduzo a entrevista que a revista interna fez comigo.
Educador empolga platéia de intelectuais e afirma: “falta fogo nos olhos dos professores”
Quem foi ao Teatro César Cava ontem (2) esperando mais uma tradicional palestra sobre Educação saiu “transformado”. Ao falar sobre O papel do professor e a postura interdisciplinar, Nailor Marques Júnior (45) literalmente paralisou por 2h45 uma platéia de 550 docentes universitários (graduação e pós-graduação) da Unoeste – Universidade do Oeste Paulista.
O palestrante, formado em Direito e Letras (UEM) é autor de vários livros na área da Educação e DVDs sobre reconhecimento de oportunidades na vida pessoal e profissional. Já fez mais de mil conferências no Brasil e no Exterior. Na Unoeste, sua fala esteve vinculada aos seus livros Educação para a felicidade e Educação para as inteligências.
Demonstrando um humor contagiante e domínio incomum sobre a arte da palavra Nailor abriu sua palestra declamando o Poema II de O guardador de rebanhos (Fernando Pessoa). Destacou a importância do educador em nascer “a cada momento para a eterna novidade no mundo”.
Durante todo o tempo, sua fala foi permeada por citações de grandes nomes da Literatura. Além de Fernando Pessoa, citou Platão, Sócrates, Padre Vieira, Rui Barbosa, Drummond, Manoel de Barros, Naum Alves de Souza, Adélia Prado, Ferreira Gullar entre outros. Fez leituras semióticas sobre a arte do gênio da pintura francesa neoclássica Nicolas Poussin, bem como da obra-prima Pietà, esculpida em mármore de Carrara por Michelangelo, aos 23 anos. Decifrou a citação do gênio de que libertar imagens é muito diferente de esculpir imagens. Lembrou que a pior pobreza é a de espírito. Utilizando-se de versos de Adélia Prado demonstrou sobre a importância da construção de conceitos como estratégia de aula. Convenceu que “não existe aula interdisciplinar, existe é professor interdisciplinar e que educar exige amor, o que não significa ser bonzinho”.
Nailor fez questão de enfocar sua experiência docente no campo da Literatura e falar da satisfação e do orgulho em ser professor. “Ensinar é como gostar de arte. Se um quadro, ou escultura, ou livro, ou música não causar prazer elas pouco ou nada servem”, lembrou. “Você tem que ter escolhido ser professor, gostar até mesmo das dificuldades, do contrário deve desistir da profissão”.
O educador ressaltou que é inconcebível a falta do hábito de leitura por grande parte dos professores brasileiros. “Em qualquer área, ler é nossa principal ferramenta de trabalho e o verdadeiro mestre nunca teme a total transmissão do conhecimento aos seus alunos”.
De acordo com Nailor, a relação ensino/aprendizagem nunca foi e não pode ser tarefa fácil. “É um pacto muito sério entre a sede do aluno e a disposição do professor de matá-la, o professor tem que estar preparado para o aluno que tem sede de saber. Em sala de aula o professor precisa o tempo todo incentivar o aluno a interagir, a falar o óbvio, descomplicar o conhecimento e potencializar as qualidades de seus educandos.
Parafraseando trechos dos sermões de Vieira, lembrou que “o homem não é o que ele fala, o homem é suas ações”. Observou que o bom professor deve se pautar em três requisitos básicos: “domínio de conhecimento e a confiança do aluno nesse domínio; método (a grande metodologia é a de cada um) e postura, lembrando que a orquestra toca de acordo com o movimento do maestro. Entre muitos exemplos, citou a sabedoria chinesa sobre o significado do elemento fogo (símbolo da vontade de realizar e da inteligência) e acrescentou: “o professor não pode ser frio, nem morno, falta fogo nos olhos dos professores”.
Para Nailor, o professor precisa estar atento aos 4 pilares da Educação instituídos para este século: Educar para o Ser (o desafio de cultivar todas as potencialidades do ser humano); Educar para o Aprender (incentivar o aluno a aprender a aprender – este confia no professor se o professor demonstra que confia no aluno); Educar para o fazer (para dar sentido àquilo que se propõe) e Educar para o Conviver (lembrar sempre que pessoas são diferentes).
A uma platéia de professores universitários e de intelectuais que o aplaudiu em pé, demonstrou ainda a necessidade diária de reinventar. Em segundos transformou uma folha de papel amassada numa flor. “Todo dia é dia de florescer”, fechou.
“O bom filho à casa torna”
Em sua palestra número 1.046, Nailor Marques Júnior, ressalta a emoção de voltar a sua cidade natal, Presidente Prudente, agora na condição de palestrante, mas nunca deixando de ser professor. Aos presentes na palestra, que fez parte do Encontro Pedagógico dos Docentes da Unoeste, demonstrou a importância de reconstruir para o próprio professor a sua imagem. Em entrevista à Assessoria de Imprensa (AI) da Unoeste ele falou sobre o tema O papel do professor e a postura interdisciplinar e a busca da felicidade.
AI – Qual o seu objetivo com a palestra que aborda assuntos do livro Educação para a Felicidade?
Nailor – A idéia é falar sobre “O papel do professor e a postura interdisciplinar”. No final, se resume a idéia de que é possível ser feliz sendo professor. Aqui no Brasil existe um pensamento de que as pessoas são professores porque não têm mais nada para fazer da vida, quer dizer então que professor não é uma carreira, é um ganha pão, um complemento, é a profissão da mulher, de quem não tinha nada para fazer. Aquele brilho, glamour, aquela coisa fantástica se perdeu, foi esfarelando, principalmente do fim da ditadura pra cá. Esse trabalho é justamente para reconstruir ao próprio professor a imagem dele, como eu me vejo o que eu entendo que significa ser professor, porque se ele enxerga como um complemento de renda, como alguma coisa que não vai ter possibilidade de ser uma profissão efetiva, ele nunca fará o seu trabalho com plenitude.
AI – Outro aspecto abordado nas suas palestras na área educacional é a interdisciplinaridade. Como você a relaciona hoje?
Nailor – Na palestra tento corrigir um pouco uma coisa que eu acho que está um pouco equivocada, que são as aulas interdisciplinares. Hoje se fala bastante nisso. Eventos dessa natureza evitam tratar desse assunto porque na verdade metade pensa que é conversa fiada, a outra metade pensa que é algo tão complicado que é melhor nem falar, quando na verdade a interdisciplinaridade sempre existiu. As pessoas sempre foram interdisciplinares, não existem aulas, mas sim pessoas interdisciplinares.
AI – A felicidade está bem próxima do professor?
Nailor – Sim. Para isso, ele tem que aceitar que ser professor é uma profissão. Na minha opinião é a mais importante, pois precede todas as outras. O professor precisa ter compreensão daquilo que ele faz, a motivação já está construída, motivação significa o motivo para alguém praticar a ação. O que ele precisa é encontrar a razão pela qual ele deveria fazer isso, e fazer bem feito, se ele descobre isso vai ser feliz, porque é uma profissão tão mágica como qualquer outra ou até mais mágica. Só os professores têm capacidade de jogar sementes para mudar o mundo.
AI – Como é retornar à Presidente Prudente, nessa palestra na Unoeste?
Nailor – Eu lembro desse lugar (Campus I) quando era uma fazenda, estou muito emocionado, por voltar na condição que eu estou aqui hoje. Já falei em muitos lugares, essa é a minha palestra número 1.046. Já falei em Portugal, Argentina, Paraguai, Chile e nunca tinha falado em Presidente Prudente. É uma dívida que estou pagando comigo mesmo. Estou muito encantado e feliz em ver o que a Unoeste fez ao longo desses anos. Quando saí daqui, a Unoeste era uma ‘menininha’, uma instituição com 5 anos. Na verdade a Unoeste é um divisor de águas na cidade. Podem aparecer muitas outras aqui, mas a Unoeste que trouxe “a civilização para cá”. É responsável por toda essa urbanização. Fico ainda mais feliz por minha primeira palestra ser aqui.
AI – Você tem hoje em Maringá (PR) um Atelier de Redação como é esse trabalho?
Nailor – O Atelier de Redação tem 20 anos é um trabalho inédito. Posso dizer que sou um maluco com sorte, pois manter uma escola de Língua Portuguesa para brasileiros é uma coisa fantástica. Eu conto no exterior e ninguém acredita, uma escola da sua própria língua no seu próprio país. A nossa intenção é ajudar a fazer com que as pessoas repensem a língua como um instrumento de trabalho. O local é procurado por diferentes gerações, desde crianças até profissionais. Em 20 anos passaram pelo Atelier mais de 15 mil pessoas. É a menina dos meus olhos.