Um Natal às avessas ou os anjos existem sim
O que se escreve antes das histórias:
1) Dizem que os anjos aparecem com freqüência no Natal, eu conheci um em Florianópolis;
2) Meu amigo Jhonny (diferente do filme, o nome dele é Jhonny) diria, como sempre, que a história que vou contar só pode ser mentira.
Dia 24 de dezembro de 2008, véspera de Natal, período em que todo mundo pensa que é bom, algumas pessoas realmente o são. No entanto, nem o Natal impede que se tenha uma maré de azar, foi o que me aconteceu nesse dia. Como diz o poeta Jessier Quirino, existem dias que a gente está tão azarado que dorme no chão e cai da cama, que dorme na igreja e perde a missa, que amanhece com o chinelo trocado pisando em bosta de cururu. É como acordar em plena chuva de canivete. Pois é, dia 24 foi assim.
Tudo começou com o síndico do prédio que exigia que as minhas bicicletas, que ficam na garagem quando estou no apartamento, voltassem para dentro de casa. Foi um estresse, primeiro porque garagem é espaço privativo (tem gente que confunde ser síndico com ser rei), depois, deixo as bicicletas lá apenas no período de final de ano, é muito pouco tempo para alguém arranjar uma encrenca. Mas, para evitar discussões, coloquei-as no transfer e deixe-as presas na traseira do carro.
Chovendo canivete 1: não contava, no entanto, com o que aconteceria depois. Eu brincava com meu filho Miguel, de apenas 10 meses, quando ele caiu por cima de mim e machucou o braço esquerdo. Não sabíamos o que realmente tinha acontecido e ele não parava de chorar muito. Com uma criança pequena em casa, a gente logo aprende a diferença entre choro fingido e choro sentido e ele chorava muito sentido.
Chovendo canivete 2: saímos, eu e minha mulher, para levá-lo ao posto de saúde bem próximo de nosso apartamento. Não havia médico para atendê-lo de pronto, era preciso esperar uma pequena fila de seis pessoas. Urgência tem outro sentido nos postos públicos. A própria enfermeira nos aconselhou que buscássemos uma clínica 24 horas privada, já que tínhamos plano de saúde particular.
Chovendo canivete 3: fomos para a tal clínica e, como o esperado, atendidos de pronto. No entanto, não havia especialista (cada dia está mais difícil saber que tipo de médico procurar) e, mesmo diante de um raio x, o médico não sabia dizer o que havia acontecido. Ele mesmo nos aconselhou a buscar um hospital infantil, onde, com certeza, encontraríamos um especialista que poderia dar um diagnóstico seguro. Mesmo debaixo de uma bruta chuva partimos em busca do tal hospital, sem saber direito onde ficava, porque ninguém sabia nos explicar. Fomos nós, o filho chorando e as bicicletas no transfer lá atrás pulando como doidas.
Chovendo canivete 4: passei da entrada da rua para o hospital que, depois de muito custo, nos ensinaram, fiz uma curva brusca no retorno e as bicicletas com transfer e tudo caíram em plena avenida Beira-mar norte, num fluxo típico de Natal, isto é, as quatro pistas lotadas de carros. Encostei meu carro na outra margem e voltei a pé, em plena chuva de canivete, pedindo aos carros que parassem para que eu pudesse recolher as duas bicicletas com o transfer, já que estavam presos por um cadeado, que unia tudo a tudo.
Surge um anjo: do nada, um carro pára, ocupado por um rapaz e uma moça e o homem, que já se havia oferecido para ajudar antes e eu recusara, desce do carro, se molha, e diz que pode ajudar. Pasmem, no carro dele havia um transfer também, porém sem bicicletas. Eu explico que estou levando meu filho para o hospital infantil, ele recolhe as bicicletas, põe no carro dele, me acompanha até lá e me aguarda enquanto minha mulher toma as providências necessárias e eu faço as mudanças das bicicletas para o meu carro de novo. Sempre paciente e sorrindo. Eu agradeço, ele me diz seu nome, me dá uns conselhos sobre como carregar bicicletas e desaparece na chuva acompanhado da moça, provavelmente uma anja também (sumiram assim como o profeta Elias).
O que se escreve depois das histórias:
1) Os anjos existem e aparecem no Natal. Eu conheci um e ele se chama Ricardo Tavares e trabalha na Brasil Telecom;
2) Jhonny, é maluco, mas é verdade;
3) E tem ainda mais uma circunstância agravante. Quando voltávamos do hospital para casa (meu filho apenas deslocou o cotovelo), tivemos um princípio de incêndio no carro (o amaldiçoado do transfer impediu que o limpador traseiro funcionasse e como ele liga automaticamente quando se dá ré na chuva, ele queimou sua fiação). Voltamos felizes pelo nenê, mas tomando chuva com as janelas abertas por conta fumaça e, por via das dúvidas, com o extintor na mão temendo coisa mais séria.