Prof. Nailor Marques Jr.

março 9, 2010

Dia internacional da mulher

Arquivado em: Educação — Prof. Nailor Marques Jr. @ 3:33 pm

Educação para ser mulher

 

Escrever matérias semanais nos apresenta, por vezes,  um ingrediente divertido e inusitado: de repente você deixa de escrever o que te apetece e passa a responder à interação dos seus leitores. Desde que comecei com minha coluna via internet, tenho percebido um aumento crescente de pessoas que lêem e palpitam contra, a favor, ou ainda, que sugerem temas que gostariam de ver tratados. Acho muito interessante, mas fico com a impressão de que estou sempre um passo atrás dos acontecimentos. Escrevo, ou pelo menos tento, sobre temas mais perenes, para que as matérias não envelheçam com muita rapidez, para que mantenham um certo oxigênio.

Estou dizendo isso, porque recebi inúmeros pedidos para que tivesse me manifestado no Dia Internacional da Mulher. Acho bom que as pessoas queiram saber o que penso e por isso resolvi abordar o assunto. Não sei se  repetirei o mesmo em outros acontecimentos, porque não gosto de datas e saibam que isso inclui aniversário, Natal, Ano Novo e congêneres. Tenho para mim que nesses dias, todo mundo resolve encarnar o espírito da comemoração e tudo fica pasteurizado, artificial e chato. Por conta dessa impressão, tento me manter à distância desses festejos, não quero colocá-las no perder de vista do horizonte, quero apenas manter uma distância higiênica e segura.

No caso do dia das mulheres me rendi ao fato, porque acho que umas verdades precisam ser ditas sobre homens e mulheres, depois que alguém alardeou que houve uma grande mudança no mundo, nessa “guerra dos sexos”. Comemorar o dia das mulheres, dos gays, dos homens, dos negros, dos deficientes ou qualquer outro dia, desses inventados por vereadores desocupados, deputados insossos ou organismos internacionais ineficientes é tão importante quanto “levar um copo à água das fontes”, como diria Fernando Pessoa. Ou todo dia pensamos, falamos e agimos com coerência ou não adianta inventar um dia para desculpar nossas consciências pesadas porque não fazemos nossa lição de casa. Vejo e vi muitas manifestações públicas e privadas no tal dia das mulheres, mas também notei que logo após elas, as mesmas manifestantes ferrenhas e oradoras iradas, voltavam a levar a vida que levavam antes. Não precisou nem acabar o dia, bastou anoitecer. As vidas não mudam porque as pessoas fazem aniversário ou o ano vira no calendário. As vidas mudam porque as pessoas tomam as rédeas de seus destinos e fazem com que as mudanças aconteçam.

É preciso parar de iludir as pessoas com a falsa idéia de que com a criação de seus dias  específicos a vida delas vai melhorar. Está mais do que na hora de ensinar os seres humanos a trabalhar por aquilo que eles querem, para que possam transformar suas próprias existências em um dia especial atrás do outro e logo em toda uma vida especial, de acordo com o que querem e não com o desejo dos outros. Eduquemos então, a partir de agora, nossas meninas para serem mulheres, assumirem-se como tais e deixarem de pensar que deverão ser como os homens. As mulheres nunca serão os homens, porque não podem, nem precisam ser (graças a Deus é assim!). Uma mulher que conseguir tirar nota 10 na escola para virar homem, será, na melhor das hipóteses, um homem de segunda linha. Os homens e as mulheres são maravilhosamente diferentes.

As mulheres devem ser educadas para tirar proveito de sua capacidade maior de serem justas (quando seus pares são mais tendenciosos); de sua dedicação à causa humana (enquanto o sexo oposto pende mais para o indivíduo e a competição); de seu maior coeficiente de humanidade (no lugar dos homens sempre tão dispostos a guerrear por bobagens e conquistas baratas); de sua vocação natural para fazer o bem e compreender o próximo e de seu apego às coisas da família (basta que vejamos a sua capacidade de agregar os parentes em torno de si); de sua propensão a dizer sim ou não sem grandes traumas (enquanto os homens enrolam e nunca ninguém sabe direito o que querem).

Mulheres precisam apenas aprender a ser mulheres, a se tornar mulheres, a se exercitar mulheres, a viver como mulheres, a amar como mulheres, a ser felizes e infelizes, atrevidas e comportadas, mágicas e previsíveis, comprometidas ou largadas, mães ou tias, realistas ou sonhadoras como mulheres que todos nós precisamos e queremos. Não há obra de arte melhor acabada do que uma mulher orgulhosa de si e, tenho para mim, que a educação para esse comportamento tornaria o mundo mais habitável, o céu mais azul, os anos mais límpidos, as agruras mais suportáveis e os destinos mais cumpríveis. Tenho para mim que quando homens e mulheres entenderem a verdade disso elas estarão, como diria o poeta, colocadas no início do céu para encontrarem-se com os homens postados no final da terra e juntos voarem, perpetuarem-se, e colocarem inúmeros tijolos nessa incomparável construção chamada espécie humana.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

fevereiro 25, 2010

Branca de Neve, a rainha burra, o espelho ingênuo, os anões gays e o príncipe necrófilo

Arquivado em: Publicações — Prof. Nailor Marques Jr. @ 2:19 pm

Num reino muito distante (isso é básico), num período de “era uma vez” vivia uma rainha linda e má (tipo vilã da novela das oito da Globo, que sempre começa às nove e meia), ela era viúva de um rei que já tinha uma filha chamada Branca de Neve (isso é nome de gente?). A menina tinha a pele branca (se fosse hoje, ela não seria mais assim, porque todas querem um bronzeamento, nem que seja artificial) e as faces rosadas, era muito boazinha, apesar de ser muito mal tratada pela madrasta.

Sua madrasta má tinha a certeza de que era a mulher mais bonita do seu reino e, para ter certeza disso, sempre consultava seu espelho mágico (todas as mulheres deveriam ter um para parar de perguntar aos homens se elas estão bonitas, sem permitir nunca que eles digam a verdade). O espelho (notem que é do sexo masculino) sempre dizia que ela era a mais bela de todas, até o dia em que Branca de Neve completou 15 anos, então espelhou, absolutamente ingênuo, resolveu ser sincero (isso é inimaginável igual político sincero: se um político disser que vai “trabalhar” apenas terça de a quinta e roubar só o normal, nunca vai se eleger), mas o espelho num arroubo de sinceridade, disse:  

- Não, agora não, majestade, Branca de Neve é a mais linda de todas, a mais bonita do reino.

A rainha atirou o espelho ao chão, ele deu uma trincadinha, mas calou a boca na hora (é o melhor que os homens podem fazer num momento desses). Mandou chamar um caçador e pediu que ele levasse Branca de Neve para a floresta (hoje diríamos mato, mas é um pouco agressivo sexualmente falando), que a matasse e trouxesse o seu coração de presente (e o povo reclama do Maníaco do parque!).

O pobre rapaz não teve coragem, deixou a jovem fugir, matou um cordeiro e deu de presente à rainha (claro, num tempo em que não havia Greenpeace). Tudo parecia estar bem, até ela perguntar de novo ao seu espelho mágico (e burramente honesto) quem era a mais bela. E, de novo, pasmem, ele disse a verdade mesmo conhecendo a sua patroa. Ele lhe disse que ela morava na floresta com 7 anões (qual é a chance de nós encontrarmos dois anões juntos? Agora imaginem sete? Moram juntos, não têm mulher, nunca tiveram e ainda são felizes? Encontram uma menina de 15 anos, linda, virgem, que quer morar com eles e eles a adotam? Moral da história: são gays ou assexuados, claro).

A rainha jogou o espelho ao chão de novo e começou a organizar um plano para tentar matar a menina outra vez. Enfeitiçou uma maçã e tentou convencer a jovem a comê-la. Se a bruxa encontrou Branca de Neve sozinha, no meio da floresta, para quê usou o truque da maçã? Por que não deu logo um tiro na menina? Eis o mistério da fé! A menina (nem tão menina assim) comeu a maçã e teve um desmaio profundo (e fico me perguntando, não era veneno?).

Quando os assexuados chegaram viram a menina desmaiada e pensaram que estava morta. Com pena de enterrarem aquela belez colocaram-na num caixão de vidro perto da casa deles (Será que eles pensaram que ela ficaria intacta? Eram anões e burros, porque não imaginaram que ela putrefaria?). Mesmo assim fizeram isso, até que um lindo príncipe, daqueles da Cinderela (história 1), chegou, abriu o caixão e beijou a moça (hoje diríamos que era um dark, um gótico ou um necrófilo). Quem em sã consciência abriria um caixão de uma desconhecida e a beijaria na boca, sem ser um doente mental? A moça cuspiu o pedaço da maçã que estava em sua garganta e voltou à vida, saiu de sua catalepsia, o príncipe, então, se casou com ela (hoje as mulheres estão tendo dificuldades de encontrar um homem para casamento estando vivas, imaginem mortas), os anões deram uma festa e todos viveram felizes. A rainha má presume-se que tenha voltado ao palácio e dado uma surra boa no Espelho mágico para se acalmar, tomou duas cápsulas de fluxetina e seguiu a vida, rainhamente.

fevereiro 11, 2010

Os três porquinhos e o lobo estúpido

Arquivado em: Publicações — Prof. Nailor Marques Jr. @ 2:53 pm

Esta é a estória mais improvável das estórias infantis. Era uma vez (ninguém nunca sabe quando), numa floresta encantada muito distante (ninguém nunca sabe onde, na Europa desde o século XII é difícil encontrar uma floresta, imaginem só uma encantada) três irmãos porquinhos que viviam de brincar e correr com os outros animais da floresta, mas temiam muito a chegada de um lobo mau.

 Nunca entendi direito o que quer dizer “uma floresta encantada”, muito menos por que, numa cadeia alimentar enorme, apenas um lobo quereria comer os porcos? Onde estavam os leões, o leopardos ou os tigres? E também levanto duas questões filosóficas: existem lobos bons? Os porquinhos temiam apenas o lobo, porque nunca entenderam como os ciclos da vida funcionam?

Com medo do aparecimento do tal lobo (que eles sabiam que apareceria, talvez por intuição suína), os porquinhos resolveram construir três casas para se abrigarem em caso de perigo. Antes eles moravam onde? Eles não tinham pais que pudessem cuidar deles ou seus pais já haviam sido mortos antes? Se eram três irmãos, por que construíram três casas e não apenas uma para morarem juntos, já que ainda eram porquinhos?

 O mais preguiçoso construiu uma casinha de palha; o porco ligeiramente mais empenhado construi uma casa de taipa e o mais zeloso e trabalhador de todos, construiu uma casa de tijolos e cada um se abrigou na casa em que construiu. Só depois que as três casas estavam prontas foi que o lobo apareceu. Isso não parece bastante estranho? O lobo só se interessou por carne suína, depois que os porquinhos já estavam abrigados? Onde ele esteve esse tempo todo?

Quando os porcos notaram a presença do animal feroz gritaram e correram cada um para a sua casa. Estranho que todos não tenham corrido para a mesma casa, o que seria muito mais lógico. O lobo, que agora estava faminto e queria variar o seu cardápio, correu atrás dos animaizinhos, mas não os pegou. Porcos correm mais do que lobos?

Ao chegar a casinha de palha, o lobo gritou:

- Abre essa porta senão eu assopro!

E o primeiro porquinho obviamente respondeu:

- Não abro!

Claro, isso é mais do que lógico, se os porcos não tivessem medo do lobo ou desejassem ser devorados por ele, por que teriam construído as casas e se refugiado nelas? Se o lobo viu que os porquinhos fugiram assustados, o que o fez pensar que, sendo gentil e pedindo, algum dos porquinhos abriria a sua porta e o convidaria para um café? Como o primeiro porquinho não abriu, o lobo assoprou forte e a casinha caiu. O anilmalzinho saiu correndo e gritando e se escondeu na casa de taipa. Já que era para se proteger do lobo, por que ele já não correu para a casa mais segura?

O lobo, vendo frustrado seu almoço, correu para a segunda casa e gritou estupidamente a mesma coisa:

- Abre essa porta senão eu assopro!

E como era de se prever, os porquinhos não abriram. O lobo assoprou e casinha veio ao chão. O suininhos correram, o lobo não os pegou de novo, e eles se esconderam na casa de tijolos, a mais segura de todas, e já estava na hora. O lobo, mais idiota do que nunca, repitiu o mesmo gestual. Se os poruinhos não abriram antes e correram assustados, o que fez com o lobo pudesse pensar que eles mudariam de plano? Esse lobo é um assinte de burrice à sua espécie.

Gritou, assoprou e casa não caiu. Repetiu o gesto três vezes e nada aconteceu (é bom lembrar que a única diferença entre a inteligência e a burrice é que a inteligência tem limite). Quando ele viu que a casa tinha chaminé e que dela saía fumaça, pensou que poderia entrar por lá. Esse lobo é de uma estupidez assustadora: se saía fumaça da chaminé é porque havia fogo lá embaixo e se havia fogo, como esse animal idiota poderia entrar por lá? Mesmo assim tentou. Os porquinhos perceberam, abriram a panela de água que fervia, o lobo caiu dentro e morreu. Havemos de convir que, para um aninal tão imbecil assim, esse era o único destino possível. Se bem que entre os humanos pessoas assim podem virar deputados, senadores e, quem sabe até, presidentes.

Os porquinhos saíram de suas casas e cantaram uma canção muito suspeita, fazendo festa com os outros animais. A grande pergunta é: se havia outros animais e o lobo não conseguiu pegar os primeiros porcos, por que não mudou de planos e comeu outro animal qualquer?

fevereiro 8, 2010

Cinderela e a terapia

Arquivado em: Publicações — Prof. Nailor Marques Jr. @ 3:45 pm

Cinderela era só uma mulher comum, bonita, sexualmente atraente, porém comum (como são todas as pessoas). O problema é que Cinderela, porque nunca frequentou um analista, não sabia que sofria de sua própria síndrome (que é a de passar a vida toda esperando a chegada de um príncipe lindo, alto, forte, loiro, cabelo cortado à Channel, calça apertada, camisa bufante e montado num cavalo branco, com quem pudesse  se casar e passar com ele todas as noites de luar fazendo amor). Queria pouca coisa a aspirante a princesa.

O que Cinderela não sabia também é que um homem lindo, alto, louro, cabelo cortado à Channel, calça apertada, camisa bufante e montado num cavalo branco, se existir, com toda certeza será gay. Cinderela nunca entendeu tampouco que  homens gostam de sexo e que para eles fazer amor é uma forma eufemista de fazer sexo (tanto que nenhum homem diria numa roda de homens que fez amor com uma mulher, sob pena, no mínimo, de um sorriso desconfiado da audiência).

Como Cinderela passou a vida desdenhando dos homens brutos que se acercaram dela (para ela, todos os homens que não correspondiam aos seus sonhos, homens reais, portanto, eram brutos, isso é parte da síndrome), terminou a sua história só. Cinderela passou a vida procurando bichos nas nuvens e costurando um enxoval fantasma e assim viveu infeliz para todo o sempre.

Em tempo: o príncipe apareceu, mas não a encontrou. Sabe-se que encontrou seu grande amor num baile do Gala Gay e hoje é um modelo famoso nas páginas do GMagazine.

 

Desestórias

Arquivado em: Publicações — Prof. Nailor Marques Jr. @ 3:43 pm

Sempre amei Guimarães Rosa por sua capacidade de desenredar as estórias mais enredadas, sempre achei que mais difícil do que contar uma estória seria descontá-la. Fico bestamente, às vezes, pensando no que as estórias não seriam, se não fossem assim como são. Por isso quero satreana e inutilmente pensar um pouco no detrás de algumas delas, no nãoconto, no nãodizer das coisas. Assim como se uma borboleta virasse lagarta e a lagarta pudesse voar na solidão de sua lagartez. As desestórias que se seguem são assim: lagartas que voam, são bichos de pé, sem pé nem cabeça, são desinvenções pra fazer o tempo parado passar.

dezembro 5, 2009

A chuva do coração

Arquivado em: Publicações — Prof. Nailor Marques Jr. @ 4:49 am

Hoje meu filho Miguel de quase dois anos correu e, enquanto me abraçava forte, exclamava uuuhhhh. Caminhei até a varanda, olhei para o céu aberto em luz radiante e nuvens esparsas e pensei que há um mundo fantástico à nossa espera lá fora. Voltei meus olhos para meu filho que ainda sorria e estático me observava e me dei conta que havia, lá dentro de casa, um mar sem fim de amor pueril ao alcance de minhas mãos. Concluí, como diria o poeta, que talvez essa seja uma das razões pelas quais o nosso coração fica impedido de secar.

novembro 12, 2009

Poema para meu filho Diego

Arquivado em: Publicações — Prof. Nailor Marques Jr. @ 11:08 am

Poema para meu filho Diego

a  vida sempre está

onde a quisermos

a morte nem sempre

 

a vida sempre está

em cada flor que se abre

a morte é o desaparecer na natureza

 

a vida sempre está

nos olhos de quem amamos

a morte no seu cerrar para sempre

 

a vida sempre está

na nossa capacidade de sonhar

a morte no que deixamos de fazer

 

a vida sempre está

em algum lugar além de nossos sorrisos

a morte é só um lugar além dos nossos olhos

 

Nailor Marques Jr (12/11/09)

novembro 9, 2009

o tempo é a noiva

Arquivado em: Publicações — Prof. Nailor Marques Jr. @ 2:06 pm

 Esse texto foi escrito, a pedido, para ilustrar alguns dos trabalhos da nova exposição do artista plástico Jorge Pedro. Jorge é meu amigo é sou fã incondicional de seus trabalhos. O texto tem vida independente por isso resolvi postá-lo aqui também.

uma construção desnecessária, em pílulas, para a discussão da filosofia de vida que o tempo não tem. o tempo é a maior de todas as barbaridades. o tempo é sublime. o tempo é um cavaleiro de armas escuras em plena claridade da manhã no início inicial dos tempos.

*

hoje eu vi uma noiva em plena avenida paulista passeando de bicicleta com amigas e cestas de flores, ela gritava que estava feliz e iria ser feliz para sempre. o sempre é o pai do tempo, pensei. devemos chamá-lo então de sr. sempre? o tempo seria essa noiva dizendo aos quatro ventos que era filha do sempre? quanto tempo dura o sempre?

*

jorge pedro não é apenas jorge, mas pedro também. um nome é pouco para a fome de tempo que o artista tem. jorge com pedro construiu com as suas obras uma máquina do tempo e seu mudou pra lá. jorge pedro agora é o dono do tempo e, talvez, esteja pedindo em silêncio, um resgate para o sr. sempre, que o pai do tempo.

*

aprendi nos livros de artes com os doutores em doutoramentos doutorais que a boa arte não envelhece nunca. jorge pedro faz boa arte. minha avó me dizia que tinha ficado sábia porque envelhecera. a boa arte de jorge pedro não envelhecerá nunca, então jamais ficará sábia? Essa será a maldição de ser boa?

*

os livros dos doutores falam de boa arte. existe má arte? o que não é bom seria arte também? perguntam meus intestinos.

*

tempo, tempo, tempo, tempo, vou lhe fazer um pedido, diria o poeta.

eu não peço nada, já te matei tantas vezes e você não morreu.

*

os relógios servem para medir o tempo. quando olhamos para eles sabemos quanto tempo não temos mais. quando olhamos para eles sabemos que é hora de almoçar, de dormir, de beber, de sair para o trabalho. o relógio aprisionou o tempo e o tempo nos fez prisioneiros, logo o mundo deve ser uma grande ampulheta. quando será o dia em que seremos virados para baixo para começar tudo outra vez?

*

a primeira vez que fui a um psiquiatra para checar o nível de minha loucura, ele me disse fique tranquilo você tem todo o tempo do mundo para se abrir comigo. hoje sei que quem tem todo o tempo do mundo é o sempre, que está preso na máquina do tempo de jorge pedro. será que eu sou jorge pedro e não sei? todo mundo quer ser jorge pedro e john malcovich também.

*

a infância tem o dom de não envelhecer, para as crianças o tempo não passa, flui. para um bem-te-vi o tempo dura as três sílabas de seu canto. para uma mosca adulta vinteequatrohoras, uma eternidade no mundo minúsculo das moscas. para a menina que não ganhou a boneca no natal, o tempo dura uma lágrima. para noiva deixada no altar o tempo dura o olhar de seus convidados. para o velho sentado sozinho no banco da praça o tempo dura a passagem da família a caminho da missa. para um coração quebrado o tempo dura até o jorrar de todo o seu sangue. para um sonhador o tempo dura até que a última luz se apague no horizonte sem fim.

*

atemporalidade é tudo que vive fora do tempo. o que vive fora do tempo não pode ser encontrado pela máquina do tempo. a arte é atemporal. existirá uma máquina da atemporalidade?

*

muitas pessoas dizem que gostariam de ter vivido em outro tempo, um tempo onde o tempo não passasse tão rápido. se elas vivessem lá talvez nunca soubessem que tempo então passava devagar. as pessoas sempre sabem o que é o tempo, desde que não pensem sobre ele. o tempo é justo a ignorância que temos dele.

*

o tempo é

e basta.

*

cada fração de tempo é o pedaço de um quebra-cabeça. quando somamos todos os pedaços devemos encontrar o todo. se a soma das partes faz o todo e o todo é o fim do caminho das partes, o tempo terá fim?

*

estarão os quatro cavaleiros do apocalipse sem os seus cavalos, por isso o fim dos tempos demora tanto a chegar?

*

o tempo que é aquela noiva de bicicleta por onde andará agora? a arte moraria no vão da ampulheta, por isso não poderia morrer? terei eu morrido um pouco mais enquanto escrevia esse texto?

 

 

  nailor marques júnior

de tempos em tempos

 

setembro 29, 2009

Lula e a teoria da relatividade

Arquivado em: política — Prof. Nailor Marques Jr. @ 4:38 pm

A TEORIA DA RELATIVIDADE
 
 
 
Um dos filmes que mais causaram impacto em minha vida foi “Em algum lugar do passado”, com Christopher Reeve, uma história de amor lindíssima, em que um escritor apaixona-se pela foto de uma atriz dos anos vinte. Uma paixão tão avassaladora que ele acha uma forma  de voltar ao passado para encontrar a moça e viver uma história de amor emocionante. O filme é lindo, a trilha sonora é fabulosa e o tema, instigante: viajar no tempo. Quando Albert Einstein anunciou a sua Teoria da Relatividade, em 1905, viajar no tempo - pelo menos em teoria - deixou de ser algo impossível. Pois outro dia observei uma foto de um grupo de amigos na reunião de comemoração de 30 anos de minha formatura no colégio. Olhei aqueles senhores de cabelos brancos, gordos e carecas e imaginei o que aconteceria se a foto pudesse ser vista por eles quando tinham 16 anos. Já pensou? Você poder ir até o futuro e olhar onde estará, que rumo sua vida tomou?

Imaginei então uma situação interessante. Alguém inventa uma máquina do tempo. E vai testar. Escolhe uma data aleatória - 1989, por exemplo – e aperta um botão. A máquina traz para o presente ninguém menos que Luís Inácio Lula da Silva.. Aquele de vinte anos atrás. Lula chega meio zonzo:

- O que é isso, companheiro?

Sem entender o que acontece, Lula é recebido com carinho, toma uma água, senta-se num sofá e recupera o fôlego.

 - Onde eu tô?

- No futuro, Presidente. Colocamos em prática a Teoria da Relatividade.

 - Futuro? Logo agora que vou ganhar do Collor, pô! Me manda de volta pro passado! Zé Dirceu! Zé? Cadê o Zé?

 - Calma, Lula. Aproveite para dar uma olhada no seu futuro. Você é o presidente da República!

 - Eu ganhei?

- Não daquela vez. Mas ganhou em 2002. E foi reeleito em 2006!

 - Reeleito? Eu? Deixa eu ver, deixa eu ver!

E então Lula senta-se diante de um televisor de plasma. Maravilhado, assiste a um documentário sobre os últimos 20 anos do Brasil. Um sorriso escapa quando a eleição de 2002 é apresentada.

- Pô, fiquei bonito! Ué. Aquela ali abraçada comigo não é a Marta Suplicy ou o boneco Chuck?

- Não, Presidente, é a Marisa Letícia, sua galega.

- Olha! Eu e o Papa! E aquele ali, quem é?

- É Obama, o Presidente dos Estados Unidos!

- Arriégua! Êpa! Mas aquele ali abraçado comigo não é o Sarney?
Com a Roseana? E o que é que o Collor tá fazendo abraçado comigo? O que é isso? Tá de sacanagem?

- Não, presidente. Esse é o futuro!

- AAAAhhhhhh! Olha lá o Quércia me abraçando! O Jader Barbalho! Cadê o Genoíno? Cadê o Zé Dirceu?

 - O senhor cortou relações com eles e eles respondem a processo por desvio de dinheiro público.

 - Meus amigos? Me separei deles e fiquei amigo do Quércia?

 - Pois é… Descobriu outros ladrões para se aproximar, o mais conhecidos.

- E aqueles ali? Não são banqueiros? Com aqueles sorrisos pra mim?

- Estão agradecendo, Presidente. Os bancos nunca tiveram um resultado tão bom como em seu governo. - Bancos? Os bancos? Você tá de sacanagem. Sacanagem!

- Calma, Presidente. O povo está gostando, reelegeram o senhor com mais de cinquenta milhões de votos!

- Mas não pode! Cadê os proletários? Só tô vendo nego da elite ali. Olha o Vicentinho de gravata! E o Jacques Wagner também! Mas que merda é essa?

- É o futuro, Presidente.

- E o Walter Mercado? Tá fazendo o quê ali? - Aquela é a Marta Suplicy, Presidente.

- Ah, não. Não quero! Não quero! Não quero aquele meu terninho.
Não quero aquele cabelinho. Não quero aquela barbinha. Desliga isso aí!

- Mas Presidente, esse é o futuro. O senhor vai conseguir tudo
aquilo que queria. E vai tentar eleger o ministro Dilma

 - Não e não. Essa tal de teoria da relatividade é um perigo.
 - Perigo?!

- É. As amizades ficam relativas. A moral fica relativa. As
convicções ficam relativas. Tudo fica relativo.

- Bem-vindo a 2009, Presidente…

setembro 15, 2009

Políticos, cerveja e putas

Arquivado em: política — Prof. Nailor Marques Jr. @ 12:19 pm

O sujeito se chama Marc Faber, é Analista de Investimentos e empresário.  Em junho de 2008, quando o Governo Bush estudava lançar um projeto de ajuda à economia americana, Marc Faber encerrava seu boletim mensal com um comentário bem-humorado:

“O Governo Federal está concedendo a cada um de nós uma bolsa de US$ 600,00:

1) Se gastarmos esse dinheiro no supermercado Wall-Mart, esse dinheiro vai para  a China;

2) Se gastarmos com gasolina, vai para os árabes;

3) Se comprarmos um computador, vai para a Índia;

4) Se comprarmos frutas e vegetais, irá para o México, Honduras e Guatemala;

5) Se comprarmos um bom carro, irá para a Alemanha ou Japão;

6) Se comprarmos bugigangas, irá para Taiwan.

E nenhum centavo desse dinheiro ajudará a economia americana.
O único meio de manter esse dinheiro na América é gastá-lo com prostitutas e cerveja, considerando que são os únicos bens ainda produzidos por aqui.  Estou fazendo a minha parte…”

 
Resposta de um brasileiro igualmente bem-humorado:

Realmente a situação dos americanos parece cada vez pior.
Lamento informar que, depois desse seu e-mail, a Budweiser foi comprada pela  brasileira AmBev, portanto, restaram apenas as putas; e, 
se elas  repassarem a verba para seus filhos,  o dinheiro irá todo para Brasília”!

 

 

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