Dia internacional da mulher
Educação para ser mulher
Escrever matérias semanais nos apresenta, por vezes, um ingrediente divertido e inusitado: de repente você deixa de escrever o que te apetece e passa a responder à interação dos seus leitores. Desde que comecei com minha coluna via internet, tenho percebido um aumento crescente de pessoas que lêem e palpitam contra, a favor, ou ainda, que sugerem temas que gostariam de ver tratados. Acho muito interessante, mas fico com a impressão de que estou sempre um passo atrás dos acontecimentos. Escrevo, ou pelo menos tento, sobre temas mais perenes, para que as matérias não envelheçam com muita rapidez, para que mantenham um certo oxigênio.
Estou dizendo isso, porque recebi inúmeros pedidos para que tivesse me manifestado no Dia Internacional da Mulher. Acho bom que as pessoas queiram saber o que penso e por isso resolvi abordar o assunto. Não sei se repetirei o mesmo em outros acontecimentos, porque não gosto de datas e saibam que isso inclui aniversário, Natal, Ano Novo e congêneres. Tenho para mim que nesses dias, todo mundo resolve encarnar o espírito da comemoração e tudo fica pasteurizado, artificial e chato. Por conta dessa impressão, tento me manter à distância desses festejos, não quero colocá-las no perder de vista do horizonte, quero apenas manter uma distância higiênica e segura.
No caso do dia das mulheres me rendi ao fato, porque acho que umas verdades precisam ser ditas sobre homens e mulheres, depois que alguém alardeou que houve uma grande mudança no mundo, nessa “guerra dos sexos”. Comemorar o dia das mulheres, dos gays, dos homens, dos negros, dos deficientes ou qualquer outro dia, desses inventados por vereadores desocupados, deputados insossos ou organismos internacionais ineficientes é tão importante quanto “levar um copo à água das fontes”, como diria Fernando Pessoa. Ou todo dia pensamos, falamos e agimos com coerência ou não adianta inventar um dia para desculpar nossas consciências pesadas porque não fazemos nossa lição de casa. Vejo e vi muitas manifestações públicas e privadas no tal dia das mulheres, mas também notei que logo após elas, as mesmas manifestantes ferrenhas e oradoras iradas, voltavam a levar a vida que levavam antes. Não precisou nem acabar o dia, bastou anoitecer. As vidas não mudam porque as pessoas fazem aniversário ou o ano vira no calendário. As vidas mudam porque as pessoas tomam as rédeas de seus destinos e fazem com que as mudanças aconteçam.
É preciso parar de iludir as pessoas com a falsa idéia de que com a criação de seus dias específicos a vida delas vai melhorar. Está mais do que na hora de ensinar os seres humanos a trabalhar por aquilo que eles querem, para que possam transformar suas próprias existências em um dia especial atrás do outro e logo em toda uma vida especial, de acordo com o que querem e não com o desejo dos outros. Eduquemos então, a partir de agora, nossas meninas para serem mulheres, assumirem-se como tais e deixarem de pensar que deverão ser como os homens. As mulheres nunca serão os homens, porque não podem, nem precisam ser (graças a Deus é assim!). Uma mulher que conseguir tirar nota 10 na escola para virar homem, será, na melhor das hipóteses, um homem de segunda linha. Os homens e as mulheres são maravilhosamente diferentes.
As mulheres devem ser educadas para tirar proveito de sua capacidade maior de serem justas (quando seus pares são mais tendenciosos); de sua dedicação à causa humana (enquanto o sexo oposto pende mais para o indivíduo e a competição); de seu maior coeficiente de humanidade (no lugar dos homens sempre tão dispostos a guerrear por bobagens e conquistas baratas); de sua vocação natural para fazer o bem e compreender o próximo e de seu apego às coisas da família (basta que vejamos a sua capacidade de agregar os parentes em torno de si); de sua propensão a dizer sim ou não sem grandes traumas (enquanto os homens enrolam e nunca ninguém sabe direito o que querem).
Mulheres precisam apenas aprender a ser mulheres, a se tornar mulheres, a se exercitar mulheres, a viver como mulheres, a amar como mulheres, a ser felizes e infelizes, atrevidas e comportadas, mágicas e previsíveis, comprometidas ou largadas, mães ou tias, realistas ou sonhadoras como mulheres que todos nós precisamos e queremos. Não há obra de arte melhor acabada do que uma mulher orgulhosa de si e, tenho para mim, que a educação para esse comportamento tornaria o mundo mais habitável, o céu mais azul, os anos mais límpidos, as agruras mais suportáveis e os destinos mais cumpríveis. Tenho para mim que quando homens e mulheres entenderem a verdade disso elas estarão, como diria o poeta, colocadas no início do céu para encontrarem-se com os homens postados no final da terra e juntos voarem, perpetuarem-se, e colocarem inúmeros tijolos nessa incomparável construção chamada espécie humana.
